quinta-feira, 12 de abril de 2012

DIGNIDADE E SOLIDARIEDADE NO ADEUS À VIDA

Revirando por entre os meus materiais achei um dos milhares de trabalhinhos feitos lá pelas minhas primeiras fases de psicologia. Mix de sensações - boas e ruins... Bateu uma saudade de escrever solto, sem essa coisa toda de regrinha aqui e regrinha ali. Não é por mal, sei que as regras são necessárias, mas convenhamos que por vezes elas acabam nos limitando, podando e até mesmo intimidando... Mas vá lá, foi gostoso ler a inocência e o espírito de acolhimento que estas palavras, lá de trás, me trouxeram ao ver minha escrita. O assunto? Bom, de tempos atrás, de ontem, de hoje, de amanhã... Tendo-se em vista que a morte é uma questão que nunca vai sair de moda. É algo tão natural e presente. É a única certeza que temos em vida e, mesmo assim, ainda não sabemos como lidar de um modo mais saudável e equilibrado com ela (eu sei que é estranho ler sobre isso desta maneira e que talvez você pense: Oi, será que ela nunca perdeu alguém? Tá ai, como você lida com as suas perdas? Como é para você lidar com a morte?)... Ok, devaneios a parte, segue o trabalhinho (não levem em consideração alguns errinhos, faz parte também...):

DIGNIDADE E SOLIDARIEDADE NO ADEUS À VIDA

O termo distanásia é pouco conhecido e utilizado na área da saúde. A “distanásia” é o antônimo de “eutanásia”. A eutanásia é definida como boa morte ou morte sem sofrimento e é muito menos praticada do que a distanásia – mas é muito mais conhecida. A distanásia é apresentada como um prolongamento exagerado, abusivo da morte de um paciente. É uma morte lenta, ansiosa e com muito sofrimento. Não se prolonga a vida propriamente dita, mas o processo do morrer.
A distanásia se tornou um problema ético a partir do momento em que começou a intervir de forma decisiva nas fases finais da vida humana. O homem começou a interferir categoricamente nas questões da vida. Temos muito mais conhecimento do que tínhamos antigamente, mas até que ponto deveríamos utilizar estes conhecimentos para interferir e, de certa forma, fazer de tudo para conservar a vida? Nós podemos ser curados de uma doença tida como mortal, mas não de nossa mortalidade. É a obstinação terapêutica (a distanásia) adiando o inevitável.
O paradigma que preconiza a cura, hoje, está abrindo espaço para o paradigma do cuidado. Cuidados de saúde - sob o paradigma do cuidar, aceitam a morte como parte da condição do ser humano, uma vez que todos sofremos de uma condição que não pode ser “curada”, nós somos mortais. O paradigma do cuidar nos permite enfrentar realisticamente os limites de nossa mortalidade e o poder médico com atitude de seriedade. As ações de saúde atualmente tendem a priorizar a pessoa doente e não mais a doença da pessoa. O cuidado não é mais um prêmio de consolação pela cura não obtida, mas parte integral do projeto e do estilo de tratamento da pessoa.
A filosofia dos cuidados paliativos procura atender a pessoa na fase final da vida na sua globalidade de ser. É uma filosofia de cuidados prestados onde quer que o paciente esteja: em sua casa ou em uma instituição. O atendimento deve ser humanizado, cuidando do paciente com uma assistência integral, acolhendo-o juntamente com os seus familiares, através de uma equipe multidisciplinar. Idealmente, em um contexto de cuidado, levam-se em conta as necessidades físicas, psicológicas, sociais e espirituais do paciente. E dentre outras necessidades que se tornam evidentes e dentro desta conjuntura, destacam-se: o respeito pela autonomia da pessoa, a veracidade das informações, a proporcionalidade dos tratamentos, o não abandono e o tratamento da dor.
Hoje em dia há, ainda, muita dificuldade ao se lidar com as questões relativas a morte. Desde pequenos somos privados de vivencia-la como um acontecimento natural. Escondemos, disfarçamos e não damos chance de conversar sobre o assunto. Aliado a isso, existe o medo do desconhecido - o que virá depois? Entre outros, todos esses fatores só dificultam a nossa maneira de lidar com a morte. E, por mais que se negue a morte, é inevitável vivermos situações em que somos obrigados a encará-la de frente.
Os profissionais da saúde devem aprender a refletir sobre o sofrimento do paciente, o que muitas vezes, de certa forma, é esquecido na agonia programada da terapêutica que somente se utiliza para cumprir o papel de se fazer tudo o que for possível, não se preocupando em prestar atenção e realmente dar vazão aos sentimentos, a romper a conspiração do silêncio que se faz na relação do paciente com a dor e o sofrimento.
A presença de uma doença terminal em qualquer família parece ser um processo muito doloroso. No entanto, quando bem orientada essa família poderá extrair muitos benefícios, no sentido de um crescimento enquanto grupo, fora do contexto hospitalar. A psicologia passa a ter então, como área de conhecimento, um papel importante em todas as fases do tratamento e tendo uma atuação imprescindível no acompanhamento de pacientes terminais e de suas famílias; ajudando-os a lidar com os aspectos envolvidos com o diagnóstico de doenças que estão associadas à ideia de morte, sofrimento e solidão. O efeito dessa atuação passa a ser relevante para auxiliar os pacientes a aderirem aos diferentes tipos de tratamento e a lidar com os efeitos colaterais destes no seu cotidiano. Colaborando assim com a família no sentido de lidar de forma adequada com a doença, com as reações emocionais do paciente e com as suas próprias reações emocionais. Ainda colaborar e assessorar a equipe médica no planejamento desta comunicação, respeitando as características de cada paciente e família, ajudando a lidar com as possíveis e diversas reações emocionais que também possam ter.
A atuação do psicólogo, portanto, é importante tanto em nível de prevenção, quanto no nível de diversas etapas por que passam os pacientes terminais. Tendo como objetivo fundamental oferecer assistência ao paciente, conduzindo-o a uma qualidade de vida, ajudando-o ainda a encontrar estratégias que possam adotar para manter um estilo de vida mais equilibrada e saudável.

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