terça-feira, 20 de maio de 2014

você, você, você, você...

Você vai se abrindo e possibilitando que esse outro vá chegando... Mas ele não vem aos poucos - é tudo numa porrada só. Entretanto, você gosta, você se surpreende e acaba pensando: como que não havíamos nos cruzado antes? Sintonia... Jogo rápido: eu falo, você entende - você fala, eu entendo. Sem maiores explicações. Das maldades às sutilezas, um encanto só. Acho que ando me sentindo alegre, talvez este outro tenha me devolvido a leveza das coisas - estou feliz... Por hora - e é o que me basta!  

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Tudo tão alto

Eu fechei meus olhos, mas o mundo lá fora ainda fazia muito barulho... O som que faziam era estridente, ensurdecedor... Eu não podia concentrar-me em mais nada. Não importava o que pensava, o que queria dizer, afinal ninguém ouviria/ ninguém entenderia. Abri meus olhos, ainda estavam lá... Fechei-os, novamente, na tentativa de fugir. De novo, sem sucesso, tive medo e vontade de chorar... Não havia muito o que fazer. Tudo o que eu queria era um instante em silêncio, mas meu coração não permitia - teimava em bater, forte, fora de ritmo (nem ritmo, suspirei desapontada). Impossível fugir de si mesmo/ ter uma folga de si - sempre estaremos lá, em constante batalha. Id, ego e superego... Eles, os outros... Estes tantos que somos e que gritam, desesperadamente, a todo momento em que nos centramos em nós mesmos ou quando tentamos - não pensar... E eu já não consigo mais, a gritaria, o batuque - tudo tão alto... 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Fevereiro...

            Era fevereiro e o mês só ia até o dia 28 e caia exatamente numa sexta-feira (não sei se isso importa para entender, talvez importe). Ela vinha descobrindo coisas sobre ela mesma – o tempo, ele havia passado e continuava a passar – mas ela não se assustava; as coisas que descobria eram alarmantes, no entanto ela não parecia se preocupar (o que me preocupa)... Ela tinha feito um trato com a vida – para alguns isso seria se contentar!? Talvez fosse contemplar. Nós não podemos afirmar nada, não somos ela, nem sentimos por ela. O que estava acontecendo? Rangiam-lhe as juntas, o corpo todo dolorido... Pensava, não – evitava pensar – como se isso fosse algo possível. Seu jeito de fugir não encantava. Longe de um lado romântico, não havia encantamento nenhum em sua história – quem era ela? Apenas uma pessoa comum, com problemas que talvez ela não soubesse como digerir. Ela mastigava os pedaços de vida que lhe chegavam à boca – e como não os mastigava direito, tais coisas lhe passavam rasgando a garganta. A vida entrava por meios nada delicados e ela não sabia o que fazer daquilo. O que poderia fazer afinal? Esperava que alguém pudesse responder para ela, mas ninguém aparecia... Talvez o ponto esteja bem aqui, na espera, pois ela esperava – não sabia o que, mas ela esperava. Esperar era um milagre, um milagre por lhe trazer alguma espécie de esperança, por menor que fosse. E quem não espera? Os dias iam passando, lentamente, e ela ia se tornando cada vez mais humana. Isso não tem encanto? Humano... Uma palavra que a fazia chorar – então ela sentia? Tinha sentimentos? Sim... Entretanto nem tudo era bom ou lhe fazia bem. Evitava as pessoas, não conseguia mais olhar nos olhos; tinha algo mais lhe rasgando a alma. Rupturas enormes... Dentro dela habitava um universo que ela precisava entender, mas por quais caminhos ela deveria ir? Esperava... Passou a entender que essa espera não era de algo alheio e sim a espera de um encontro dela com ela mesma e que só ela poderia fazer o que ninguém poderia. Começou a enxergar melhor suas rachaduras, procurando dar um jeito em suas lacunas... Havia se encontrado? Também não sei dizer. Estava melhor - e vinha melhorando, mas ainda assim ela esperava por algo maior... Não sabia, mas já estava acontecendo. Ela já era um pouco mais... E ainda sentia uma emoção enorme toda vez que ouvia ou pensava na palavra Humano.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

E dessa confusão - um não, sei... Não sei

E quando não restar mais nada...
Quando não tiver ninguém?!
Nenhuma espada...
Nenhum vintém...

Haverá barulho?

Teus olhos.
Os meus...
Medrosos,
Ateus...

O contrário também é válido (?)
Inválido...

Mas, sim, e se não houver mais nada?
Que piada.

Sempre haverá, ainda que não tenha.
Então venha...

Até não ter é alguma coisa... 

Ousa... 

Ouça...

Não sei!

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Aos pequeninos que se vão...

Alguns se foram - para outras mãos, olhos e coração. Foram perturbar, trazer de volta, envolver - fazer chorar. Não os queria comigo, privando-lhes o direito de existir e de serem maiores do que os limites destas quatro paredes onde estou agora e fico a maior parte do tempo... Agora eles se vão, mas para onde foram mesmo? Sera que fiz certo? A sensação é boa, o destino - aquelas mãos... Sinto-me bem, meu querido. Eles se foram de mim e, ainda assim, continuam aqui - gritando forte, chorando sangue comigo. Meus lindos e todas as suas simbologias, dizeres e despertares. Hoje, mais um dia de paz. Doando - ganhei mais, muito mais. É preciso aprender tanta coisa ainda... Meus traços mudaram, foi o primeiro e o último que se foram de mim; feliz. Ainda me restam dois e outras telas em branco, um pouco de cada um deles e a espera da tinta, a ânsia por começar. Isso? Meu coração tentando cantar e eu tentando escutar - sem pudores - infantil, cru, puro... Eu gosto de ser assim, isso é se permitir. Um beijo a minha linda criança que tanto me resgata - de mim. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

SE É BOM OU SE É MAU...

Quero contar para vocês a estória que mais tenho contado - não aconteceu nunca, acontece sempre. Um homem muito rico, ao morrer, deixou suas terras para os seus filhos. Todos eles receberam terras férteis e belas, com a exceção do mais novo, para quem sobrou um charco inútil para a agricultura. Seus amigos se entristeceram com isso e o visitaram, lamentando a injustiça que lhe havia sido feita. Mas ele só lhes disse uma coisa: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá." No ano seguinte, uma seca terrível se abateu sobre o país, e as terras dos seus irmãos foram devastadas: as fontes secaram, os pastos ficaram esturricados, o gado morreu. Mas o charco do irmão mais novo se transformou num oásis fértil e belo. Ele ficou rico e comprou um lindo cavalo branco por um preço altíssimo. Seus amigos organizaram uma festa porque coisa tão maravilhosa lhe tinha acontecido. Mas dele só ouviram uma coisa: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá." No dia seguinte seu cavalo de raça fugiu e foi grande a tristeza. Seus amigos vieram e lamentaram o acontecido. Mas o que o homem lhes disse foi: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá." Passados sete dias o cavalo voltou trazendo consigo dez lindos cavalos selvagens. Vieram os amigos para celebrar esta nova riqueza, mas o que ouviram foram as palavras de sempre: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá." No dia seguinte o seu filho, sem juízo, montou um cavalo selvagem. O cavalo corcoveou e o lançou longe. O moço quebrou uma perna. Voltaram os amigos para lamentar a desgraça. "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá", o pai repetiu. Passados poucos dias vieram os soldados do rei para levar os jovens para a guerra. Todos os moços tiveram de partir, menos o seu filho de perna quebrada. Os amigos se alegraram e vieram festejar. O pai viu tudo e só disse uma coisa: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá..."
Assim termina a estória, sem um fim, com reticências... Ela poderá ser continuada, indefinidamente. E ao contá-la é como se contasse a estória de minha vida. Tanto os meus fracassos quanto as minhas vitórias duraram pouco. Não há nenhuma vitória profissional ou amorosa que garanta que a vida finalmente se arranjou e nenhuma derrota que seja uma condenação final. As vitórias se desfazem como castelos de areia atingidos pelas ondas, e as derrotas se transformam em momentos que prenunciam um começo novo. Enquanto a morte não nos tocar, pois só ela é definitiva, a sabedoria nos diz que vivemos sempre à mercê do imprevisível dos acidentes. "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá."

Rubem Alves

SAÚDE MENTAL


Rubem Alves

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.
Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maikóvski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. van Gogh se matou. Wittgenstein se alegrou ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakóvski suicidou.
Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.
Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias se comportam bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado, nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme!), ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, que tenha a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é coisa muito perigosa...
Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idiotas de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. É claro que nenhuma mamãe consciente quererá que o seu filho seja como van Gogh ou Maiakóvski. O desejável é que seja executivo de grande empresa, na pior das hipóteses funcionário do Banco do Brasil ou da CPFL. Preferível ser elefante ou tartaruga a ser borboleta ou condor. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego. Mas nunca ouvi falar de político que tivesse stress ou depressão, com excessão do Suplicy. Andam sempre fortes e certos de si mesmos, em passeatas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.
Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.
Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas se chama hardware, literalmente coisa dura e a outra se denomina software, coisa mole. A hardware é constituída por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. A software é constituída por entidades espirituais - símbolos, que formam os programas e são gravados nos disquetes.
Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos, o cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo espirituais, sendo que o programa mais importante é linguagem.
Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso de símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.
Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos do Drummond e o corpo fica excitado.
Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e acessórios, o software, tenha a capacidade de ouvir a música que ele toca, e de se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta, e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei, no princípio: a música que saía do seu software era tão bonita que o seu hardware não suportou.
A beleza pode fazer mal à saúde mental. Sábias, portanto, são as empresas estatais, que têm retratos dos governadores e presidentes espalhados por todos os lados: eles estão lá para exorcizar a beleza e para produzir o suave estado de insensibilidade necessário ao bom trabalho.
Dadas essas reflexões científicas sobre a saúde mental, vai aqui uma receita que, se seguida à risca, garantirá que ninguém será afetado pelas perturbações que afetaram os senhores que citei no início, evitando assim o triste fim que tiveram.
Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente perigosos. Já o roque pode ser tomado à vontade, sem contra indicações. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do Dr. Lair Ribeiro, por que arriscar-se a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. A saúde mental é um estômago que entra em convulsão sempre que lhe é servido um prato diferente. Por isso que as pessoas de boa saúde mental têm sempre as mesmas idéias. Essa cotidiana ingestão do banal é condição necessária para a produção da dormência da inteligência ligada à saúde mental. E, aos domingos, não se esqueça do Sílvio Santos e do Gugu Liberato.
Seguindo esta receita você terá uma vida tranquila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, ao invés de ter o fim que tiveram os senhores que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já não mais saberá como eles eram.

(Provavelmente escrito em 1994)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Rasgamos tudo...

Um rasgo - largo.
Eu, largo, me rasgo...

É como se amar fosse um pedaço de pano...

Lento e 'inocente' engano -
Que a gente vai remendando...

Não deixa sufocar...

Quanto tempo tem?
Meu bem, o tempo nos fugiu...
Não viu?
Tudo passa - tão rápido.
Olha para o sol la fora, vê como ele nos ilumina.
Consegues?
Saia dessa escuridão - dessa solidão...
Não te isoles mais.
Acredita um pouco mais na vida!!
Estes cabelos brancos...
Não vamos pensar que foram em vão.

Vem!!!
Volta.

Tá faltando alguma coisa aqui que eu ainda não descobri o que é...

Chega deles - que vivem lá fora. Aqui dentro só entra quem eu quiser. <3
Chega, chega de mentiras...
Não deixe o amor sufocar...

Abre a janela.

Quando você me pergunta...

Quanto a mim...
O que poderia eu dizer?
Apenas fechei meus olhos...

Recortes cotidianos 7

Eu sou um louco.
Um apaixonado...
Não existe remédio para mim -
sou o próprio clichê.

Sou passado.
Uma ilusão de presente -
sem esperanças de futuro algum.

Como todo e bom velho apaixonado -
em seu grande encantamento -
eu te inventei...

Quando tive você para mim...
Ah!
Quantas coisas se quebraram...

Clichê eu disse!

Sempre há um pouco de verdade -
e de mentiras nas coisas que te falo.
Não me leve tão a sério.

Eu sempre te disse isso.
Nunca sabia se você me ouvia,
mas ainda assim eu repetia -
várias vezes ao dia...

Não me leve tão a sério!

INACABADO

Recortes cotidianos 6

O que será que ela quer de mim - vindo e me falando verdades?!
Será que ela sabe o que esta fazendo e eu estou caindo no seu jogo sujo,
ou será que ela faz isso pelo simples fato de o fazer?
Talvez a resposta seja: um pouco dos dois...
Eu gosto, mas também não sei como lidar com você.
Não fui justa, joguei friamente - no começo disso tudo e agora sou eu que me sinto atingida...
O golpe é meu e acho que só queria por a culpa em você.
É sempre mais fácil tirar a responsabilidade da gente culpando os outros...
Ainda sabendo que você ia adorar essa posição de sacana...

Sorrindo de canto...

Recortes cotidianos 5

Meus olhos te viram triste.
Você, lá, distante - olhando para algum lugar que era só seu...
Estavas a gritar por dentro - isto lhe saltava aos olhos.
Que dores carregas?
Mirar o infinito te ajuda a suportar?
Será que você pensava na gente?
É isso que tanto te machuca?

Perguntas, perguntas - são tantas perguntas e não há ninguém para responder.
Ninguém com coragem para responder.

Recortes cotidianos 4

Ela, a passos largos e lentos - tentava se aproximar.
Ansiava por carinho.
Dava pra ver pelo seu olhar...
Pedia a todo momento.
Vinha e me envolvia;
Passava por entre as minhas pernas...
Parecia sentir algo - mal havíamos nos conhecido.
Ligações estranhas.
Pelo menos ela havia parado de chorar.

À Fifi, a gata ruiva e obesa de Imbé

Recortes cotidianos 3

Neste instante em que paro, penso em minha alma.
Que tenho feito dela?
Certas vezes penso que a esqueci...
Seria possível?

De certas coisas a gente não escapa...

Recortes cotidianos 2

Meus olhos pesam, mas não os quero fechar.
Meu coração bate - palpita, fortemente, sem parar...
Cada segundo de mim é dedicado a você - meu desconhecido destino.
Será que eu saberei quando chegar a hora?
Será que eu entenderei minhas necessidades?
Eu nem ao menos sei sobre o que escrevo...
Não tenho amado ninguém, será saudades de sofrer?
Que tipo de sentimentos me levam a mim?
Nesta terra que habito - neste corpo pequenino - sinto frio.
Estou só...
Falar isto parece fazer minha solidão ecoar.
Não me pertenço e venho aprendendo certas coisas comigo mesmo.
Tenho me conhecido um pouco mais...
O que seria de mim se eu não fosse o que sou?

Guarde isso com você...

Recortes cotidianos 1

Era quase madruga - e ele tentava ligar o carro a todo custo.
Todas as suas tentativas foram em vão.
Era como se o destino não o deixasse partir.
Lá fora só os pássaros cantavam...
Você queria muito fugir, mas não pode.
De alguma forma você tem que aceitar...
Ainda não era a hora e...
Todos nós temos medo, até das coisas boas.

Você vai entender!

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

SENTAR-SE À JANELA

                                                           Alexandre Garcia 

Era criança quando, pela  primeira vez, entrei em um avião.     
A ansiedade de voar era enorme.
Eu queria me sentar ao lado da janela de qualquer jeito, acompanhar o vôo desde o primeiro momento e sentir o avião correndo na pista cada vez mais rápido até a decolagem.

Ao olhar pela janela via, sem palavras, o avião rompendo as nuvens, chegando ao céu azul.  Tudo era novidade e fantasia.

Cresci, me formei, e comecei a trabalhar.  No meu trabalho, desde o início, voar era uma necessidade constante.

As reuniões em outras cidades e a correria me obrigavam, às vezes, a estar em dois lugares num mesmo dia.

No início pedia sempre poltronas ao lado da janela, e, ainda com olhos de menino, fitava as nuvens, curtia a viagem, e nem me incomodava de esperar um pouco mais para sair do avião, pegar a bagagem, coisa e tal.

O tempo foi passando, a correria aumentando, e já não fazia questão de me sentar à janela, nem mesmo de ver as nuvens, o sol, as cidades abaixo, o mar ou qualquer paisagem que fosse.

Perdi o encanto. Pensava somente em chegar e sair, me acomodar rápido e sair rápido.

As poltronas do corredor agora eram exigência . Mais fáceis para sair sem ter que esperar ninguém, sempre e sempre preocupado com a hora, com o compromisso, com tudo, menos com a viagem, com a paisagem, comigo mesmo.

Por um desses maravilhosos 'acasos' do destino, estava eu louco para voltar de São Paulo numa tarde chuvosa, precisando chegar em Curitiba o mais rápido possível.

O vôo estava lotado e o único lugar disponível era uma janela, na última poltrona.  Sem pensar concordei de imediato, peguei meu bilhete e fui para o embarque.

Embarquei no avião, me acomodei na poltrona indicada: a janela. Janela que há muito eu não via, ou melhor, pela qual já não me preocupava em olhar.

E, num rompante, assim que o avião decolou, lembrei-me da primeira vez que voara. Senti novamente e estranhamente aquela ansiedade, aquele frio na barriga. Olhava o avião rompendo as nuvens escuras até que, tendo passado pela chuva, apareceu o céu.

Era de um azul tão lindo como jamais tinha visto. E também o sol, que brilhava como se tivesse acabado de nascer.

Naquele instante, em que voltei a ser criança, percebi que estava
deixando de viver um pouco a cada viagem em que desprezava aquela vista.

Pensei comigo mesmo: será que em relação às outras coisas da minha vida eu também não havia deixado de me sentar à janela, como, por exemplo, olhar pela janela das minhas amizades, do meu casamento, do meu trabalho e convívio pessoal?

Creio que aos poucos, e mesmo sem perceber, deixamos de olhar pela janela da nossa vida.

A vida também é uma viagem e se não nos sentarmos à janela, perdemos o que há de melhor: as paisagens, que são nossos amores, alegrias, tristezas, enfim, tudo o que nos mantém vivos.

Se viajarmos somente na poltrona do corredor, com pressa de chegar, sabe-se lá aonde, perderemos a oportunidade de apreciar as belezas que a viagem nos oferece.

Se você também está num ritmo acelerado, pedindo sempre poltronas do corredor, para embarcar e desembarcar rápido e 'ganhar tempo', pare um pouco e reflita sobre aonde você quer chegar. 

A aeronave da nossa existência voa célere e a duração da viagem não é anunciada pelo comandante. Não sabemos quanto tempo ainda nos resta. Por essa razão, vale a pena sentar próximo da janela para não perder nenhum detalhe.
Afinal,  a vida, a felicidade e a paz são caminhos e não destinos.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Só(s)

(necessaria a leitura de cada palavra, pausadamente)

Olhei para o céu e avistei uma estrela, uma única estrela. Naquele momento tudo se tornou tão simples, tão sereno... Viver não doía tanto. Foi a segunda vez que olhei para o céu hoje e foi a segunda vez que eu me surpreendi. Talvez um susto, um choque - de realidade e fantasias, de tudo aquilo que eu ainda não consigo entender (sem cobranças). Gostaria de poder compartilhar o sentimento que tomou conta de mim ao ver aquela única estrela a brilhar solitária lá no alto... Não consigo explicar, acho que foi um pouco de paz, mas uma paz diferente dessa sobre a qual a gente tanto ouve falar - era tão pura que até parecia de verdade (e não era?) - foi algo que eu nunca tinha experimentado antes. É estranho... Senti aquela estrela - solitária e plena de sua existência - a brilhar lá no fundo do meu pequeno e abandonado coração. E veja só, para minha surpresa, por alguns minutos, lembrei-me de portar um coração - órgão, simbólico - pulsando, vivendo. Batendo... Batendo - em mim. Tão solitário quanto aquela estrela lá no céu - distante de tudo e de todos e também a pulsar, tão mais próxima do que eu poderia estar - de mim mesma. Não sei se consigo fazer algum sentido, mas isso já não importa. Suspirei, fechei meus olhos, algumas poucas lágrimas tentaram fugir e, com meus olhos ardendo, olhei de novo para o céu... Vi teus olhos clamando pelos meus, suplicando para que um dia a gente possa se encontrar de novo...

sábado, 16 de novembro de 2013

Podia ter sido um conto de fadas...

 Podia ter sido um conto de fadas... É um texto escrito pelo meu querido amigo Lucas Almeida Vaz de Mello. Uma narrativa incrível - sua leitura é uma questão de necessidade e de utilidade pública. Impossível não deixar de ser tocado por toda a riqueza e emoções que vão surgindo a cada nova linha lida, a cada paragrafo que vai se formando e nos invadindo... Deixo aqui registrada a especial admiração que tenho por pessoas assim, sensíveis  e humanas -  como você(s). Lu, parabéns pelo texto! Ainda me emociona - cada nova leitura que faço desta(s) história(s). Grande abraço e boa leitura a quem aos olhos e ao coração estas palavras alcançarem...

 Podia ter sido um conto de fadas..

Desde moleque eu tinha umas coisas estranhas. De repente, inesperadamente, o mundo se fechava em minha cabeça. Todo o meu universo mental parecia se transformar numa atmosfera negra e vazia. Eu não tinha controle sobre isso, simplesmente acontecia. Subitamente as sensações vinham e muitas vezes eu nem tinha consciência do que me acontecia. Minha memória parecia não captar esses momentos, era como se eu ficasse ausente dentro do meu universo particular por alguns instantes. Todos percebiam, menos eu. Daí já me olhavam diferente. Chamavam-me de louco, diziam que eram os espíritos das trevas me perseguindo,abusando do meu corpo e da minha mente.Eu nem sabia direito o porquê disso!  Não tinha controle sobre o que acontecia em minha mente.

O tempo foi passando e cada vez mais esses momentos apareciam no meu dia a dia. Meus pais começaram a ficar com medo de mim e me levaram para a igreja da cidade, depois para benzedeira do bairro. Morávamos em uma cidade do interior, com poucos habitantes e muita ignorância. Hoje, eu chamaria de ignorância, atos e preconceitos que levariam minha vida a se restringirem um espaço infernal. Eles não são culpados, não estavam preparados para conviver com pessoas diferentes como eu.  Meus momentos de ausência mental aumentavam, eu perdia a consciência muitas vezes e caía no chão. Diziam-me que eu tremia muito e depois voltava ao normal, como se nada tivesse acontecido. A maioria das vezes acordava cansado, perdido e caído no chão, machucado. Algumas vezes as quedas eram tão bruscas e eu ficava com alguns galos de sangue na cabeça. As pessoas ao meu redor rezavam alto pedindo para que me deixassem em paz. Eu tinha medo, muito medo, mas não doía, era tão normal para mim. Mas por ser assim comecei a acumular apelidos pela cidade: louco, doidinho, perseguido de espíritos, o garoto do pacto com o diabo e por aí vai..!.

Quando fiquei mais velho, na adolescência, me tiraram da escola. Minhas crises aconteciam naquele ambiente e ali eu não poderia ficar. Eu não conseguia ter muitos amigos, os pais dos meus colegas não permitiam que seus filhos ficassem próximos de mim. Foi então que minha família me fez uma proposta, de maneira muito convidativa compulsória. Foram tão boas as descrições que me deram que eu não podia recusar, afinal minhas crises iriam passar, as pessoas não iriam me dar apelidos e eu poderia viver uma vida normal. Apesar de achar tudo sempre normal, mas não me entendiam!!... Eu tinha só 18 anos, e a vida pela frente.

Colocaram-me em um carro e viajamos, fomos para perto da capital, onde meu pai e minha mãe disseram-me que eu passaria uns dias por ali, mas, voltaria para casa.

“Um grande lugar,bem arborizado, entre montanhas banhadas por um longo rio. Um lugar com vários prédios, várias camas e muitos funcionários. As pessoas vão para lá para passar alguns dias, algumas semanas. Para descansar da vida cotidiana. Lá têm várias e saborosas refeições, algumas atividades de lazer e tempo livre. Muito tempo livre. Para você pensar na vida”. As palavras de mamãe nunca saíram de minha mente, insana mente.

Senti-me mal. O lugar era bonito, mas muito cheio de gente, as pessoas gritavam, dormiam, pareciam loucas. Por que eu fui parar ali? Porque eu caio no chão e fico tremendo? Mas lá dentro consegui fazer alguns amigos, que me contaram como funcionava o local. Contaram-me que ali passava um carrinho de comida para gente se divertir. Um carrinho de doces,balas e bebidas.

Alguns comiam docinhos brancos, outros comiam docinhos rosa, a alguns eram servidos alguns chás, a outros, a dose vinha por picadinhas, mas todos consumiam algo dos carrinhos. Todos.  Eu também, colocava na boca e esperava. Dali a pouco faziam efeitos maravilhosamente corporais. Uns poderiam ter um longo e agradável sono, outros tremiam e se divertiam assim. Alguns começavam a rir e não mais paravam. E outros ficavam acordados e estáticos, admirados como vazio.  Eu gostava de comer meus doces e conversar com meus amigos, mas nem sempre eles falavam.  Comecei a sentir falta da minha vida, já fazia um mês que eu estava ali e minha mãe não tinha ido me buscar. Os meses foram passando, fiz meu aniversário de 20 anos dentro daquele lugar, foi quando o inferno começou.

Muita gente ficou sabendo daquela colônia e começaram a levar seus familiares para lá. Meus amigos me falavam que as mães e os pais deles também disseram que seria rápido, mas não foi. Comemoramos muitos aniversários juntos ali, sempre pensando em nossas famílias. Um dia eles viriam. “Como será que eles estão no mundo, lá fora?”Sempre pensávamos nisso. Nossas famílias diziam-nos que estávamos ali porque merecíamos viver em um mundo melhor e que fora dali éramos muito ansiosos e precisávamos aprender a ficar calmos. Era como um SPA, mas foi ficando estranho. O carrinho dos doces passava muito, meus amigos foram mudando demais. Falavam que era um manicômio,mas isso é para loucos. Acho que nos confundiram e pagamos por isso.   

Havia refeitórios grandes, com comidas feitas em larga escala.  Vários pratos e comíamos com as mãos, não havia talheres para todos. Eram muitas pessoas. Chegávamos a brigar pela comida, pela cama, pelos amigos. Quem perdia a hora da comida, esperava o carrinho dos doces. 

Eram quartos coletivos, com muita convivência humana. Às vezes até dormíamos na mesma cama, mas também nos jogavam no chão e roubavam nosso lugar. Eu queria ir embora, mas não podia.  Ninguém me escutava e a cada dia eu comia mais doce. Minhas crises??  Continuavam iguais, do mesmo jeito e ainda não me incomodavam. Um dia me disseram que eu tinha epilepsia, outro dia diziam que eu tinha esquizofrenia, teve um dia que era bipolaridade, mas no papel mesmo não sei o que ficou. Mas na minha cabeça eu não  tinha nada, só uns momentos da minha nuvem particular.!!

Havia uma sala grande, com algumas cadeiras que tremiam. Vários eram levados para lá  várias vezes por dia. Tinha até um aparelho que ligava alguma peça no corpo e a pessoa tremia ainda mais.  Diziam que era para a gente relaxar. As vezes que eu fui eu saí muito perdido, com sono, tonto, deitava no sol e ficava a tarde toda.

E esse lugar foi enchendo, enchendo!!... Foi enchendo tanto que mais funcionários tiveram que ser contratados. Não bastavam apenas os moradores dos bairros próximos para ajudarem. Mandaram buscar na capital. E enquanto isso mais pessoas precisavam descansar da vida diária e o lugar encheu e lotou.

Quando estava bem cheio chegaram muitos homens de branco. Pareciam que tinham vindo do céu. Eram os doutores. Eles não me escutavam quando eu tentava dizer que eu queria sair. Sempre me davam mais doces.Para mim e para os meus amigos! A gente não aguentava mais,queríamos sair dali, pedimos,pedimos,pedimos e ninguém escutou.  Ainda me lembro do dia que os homens de branco se juntaram e nos disseram:

-“Não, vocês não podem sair! Vocês terão que ficar. Esses doces não podem ser dados lá fora e vocês dependem deles. Vão ficar por aqui para gente poder melhorar a receita..”

Receita? Receita para mim era o bolo de fubá da minha avó, que eu nunca mais vi!Eu e meus amigos não gostamos, mas nada pudemos fazer. Nossos  familiares não iam mais  lá,   ninguém sabia  o porque!. Não havia para quem reclamar só para os homens de branco, que nada faziam.

Aí teve um dia que a gente se juntou. Alguns começaram a gritar e um novo doce foi feito para eles. Outros começaram a brigar entre si para que um fosse expulso por mau comportamento, mais um doce foi feito e oferecido a eles. Outros colocaram fogo nas cozinhas, mas aí, sem farinha para fazer as receitas, os homens de branco usaram  camisas para nos amarrar. Parecia que a guerra tinha chegado. Eu tentava ter meus colegas, mas estava difícil. Teve um amigo que na época da nossa revolta, realmente achou que estava na guerra e pergunta até hoje: “E a guerra, como está? Vai ter guerra?.” As pessoas acham que ele fala das guerras mundiais, mas não é não. É da nossa guerra de acordar ali dentro todo dia.

E o caos foi aumentando, não tinha doce suficiente mais. E então, os homens de branco aumentaram. Mas eles não iam sempre lá, apenas uma vez ou outra. Anotavam algumas coisas em uns papéis e passavam para outras pessoas, que agora também usavam branco e ficavam mais tempo lá.Estas novas pessoas tinham um quarto especial, mais limpo e com chave, comiam alimentos diferentes e mais bonitos e não comiam doces. Às vezes batiam em nós. Lembro que eu levei alguns tapas, e eu não sei por quê.

Isso me indignava. Mais triste era ir pro quartinho escuro. Não me esqueço do número 9 em cima dessa porta. Mandavam-nos para lá porque precisávamos aprender. Saudade da Tia Dulce, minha professora da terceira série. Ela me fazia aprender. Lembro-medela dizendo até hoje: “sempre acreditem em vocês". Acho que hoje eu entendo Tia Dulce, afinal, ninguém acreditava em mim, só eu.

E então, mais gritos ainda começaram a surgir. Ninguém aguentava mais. Os homens de branco, com medo que os gritos incomodassem muito nos deram um novo doce que fazia as línguas se enrolarem e poucas palavras passaram a ser ouvidas naquele lugar. Eu conseguia falar, mas meus amigos não. Eu tentava, eles tentavam, mas não dava. 

Como é triste essa história..!!.

Foi quando compreendemos que teríamos que nos comunicar com o olhar. Assim os anos foram passando.  Fiz 30 anos ali, 40 anos ali, 50 anos ali, 51, 52 e estou quase com 53. Nesses vários anos as pessoas foram ficando sujas, largadas, feias. Os dedos queimados de cigarro, os dentes caindo e quase sem cabelo. Não era só velhice, era a tristeza, a solidão e o que mais doía, o abandono.

Eis que algumas bruxas, apareceram, escutaram nossas vibrações, viram aquilo e não aguentaram.  Começaram a lutar por nós. Elas passaram a ser nossa voz e a mostrar para o mundo a maldade  dos homens de branco com a gente. Lembro que quando eu fiz 35 anos, em 1995, surgiu uma noticia. As bruxas que tinham chegado conseguiram a liberdade de vários internados. A  medida que localizavam as famílias, iam nos liberando. Esperei muito minha vez, mas nunca chegou. Muitos dos que moravam ali saíram, me contaram que  morreram, ou  as famílias não os quiseram e na rua, não nos  davam doces.

Mas alguns ainda ficaram por ali comigo e novos doces foram feitos. Nós não fomos liberados, mas as bruxas não nos abandonaram. Novos funcionários foram chamados para que os olhares para os homens de branco se desviassem e foi então que novos aventais verdes, azuis e amarelos chegaram. Tinham novos funcionários que não tinham nem um uniforme padrão, cada dia aparecia com uma cor diferente. Eram pessoas mais novas, diziam que eram estudantes.  Não lembrava nem mais o que era isso, mas essas pessoas pareciam melhores, pelo menos conseguiam olhar para nossos olhares tristes e conversavam com a gente. Até abraço eu recebi depois de muitos anos.

Mas tamanha tristeza ainda incomodava as novas boas pessoas que chegaram ali e então, mais e mais cores foram aparecendo! No lugar das máquinas de tremer surgiram pincéis e tintas, no lugar dos quartinhos escuros surgiram agulhas e linhas coloridas e no lugar do carrinho de doces surgiram roupas. Mas...Nem todos os homens de branco haviam desaparecido. Alguns ainda impediam as cores de brilhar. Alguns realmente começaram a fabricar doces bons, mas outros insistiam em usar a farinha do passado.

As bruxas, ainda incomodadas com tudo isso continuaram lutando. Mesmo apontadas como bruxas, fingiram que não ouviam as críticas e lá continuavam e estavam prontas para apontar, criticar e transformar. Conseguiram que o governo nos desse um pouco de dinheiro para  irmos na garapeira comer pastel, tomar coca cola e fumar cigarro. Era o momento mais divertido. Finalmente alguém nos levava para passear sabendo que não iríamos fazer nenhum mal. Sempre fui muito grato por essas pessoas. Trouxeram-me  alguns sorrisos em meu rosto. Lembraram-me o que era pic nic, torta de limão e  sempre me deixavam escolher qual coisa queria comer.

Bruxas a solta!!! 

Ficou no ar um novo mistério!  Uma  história que não  tem fim, pois o lugar ainda existe até hoje. Sim, me encontro sentado em meu universo particular redigindo mentalmente, essa história. Meu passado é meu presente, meu presente é minha história, por trás de uma trama onde desconheço o fim, onde desconheço até o personagem principal, eu mesmo. Perdido nas minhas ideias que um dia chamaram de loucura, mas nunca vou deixar de pensar que louco é quem me pôs aqui, só porque eu me ausento de mim mesmo e fico tremendo. Mal sabem que nesses minutos consigo trilhar e ter a consciência do que sou e do que fui. O que serei eu não sei, mas “Preciso voltar.”

Certa vez uma das bruxas, com roupas bem coloridas, me disse para eu nunca esquecer que sempre é possível transformar. Eu acredito nela, mas só durante os minutos que me encontro tremendo perdido em  mim mesmo, como agora. “Preciso voltar”.

Fico pensando nas bruxas, que acreditam na gente, que acreditaram em mim. Queria que os homens de branco entendessem algumas coisas. Eles não devem se lembrar, mas tia Dulce me ensinou que o branco é a união de todas as luzes das cores. Eles deveriam lembrar que por trás do branco, existem cores que nos escutam, cores que nos apoiam, cores que nos olham como nós somos. Acontece que quem se veste de branco e não entende que a cor branca é a união de todas as outras cores,na realidade está  se vestindo de sombra! “Preciso voltar”

Voltei!

Encontro-me aqui jogado no chão, com os braços abertos. Estou voltando de uma crise. Durou alguns segundos, devo ter tremido um pouco...! Não me lembro, mas parece  que nesses vazios segundos,  minha vida passou toda pela cabeça... Não, não, devo estar alucinado,  são os doces.

Tenho que ir, está na hora do carrinho dos doces.

Assinado...
"Louquinho", mais um ser humano que perdeu sua vida em um manicômio, pelo preconceito alheio.  

PIPOCAS DA VIDA

Extraído do livro: “O amor que acende a lua”
Rubem Alves

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e de uma dureza assombrosa. Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos: a dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe, perder o emprego ou ficar pobre. Pode ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão ou sofrimento, cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo! Sem fogo o sofrimento diminui. Com isso, a possibilidade da grande transformação também. Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer. Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada para ela. A pipoca não imagina aquilo que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: BUM! E ela aparece como outra coisa completamente diferente, algo que ela nunca havia sonhado. Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar. São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura. No entanto, o destino delas é triste, já que elas ficarão duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca, macia e nutritiva. Não vão dar alegria para ninguém.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A.cor.dando

A gente cai da escada e acorda amando, mas espera ai, eu nem bati com a minha a cabeça. Será que ele voltou pro lugar? Será que fui só eu ou ele? Que movimento estranho foi esse? Que queda... Que palavras são essas? Não sei, nem foi culpa do salto, só não gosto muito - mas aconteceu que foi com ele. Enganos... Apenas coincidências. Apenas, me soa muito vago, mas serve... Aquele gato passou - se entrelaçando nas minhas pernas - e foi ai que eu cai. Cai descendo. E quando me levantei, não sei... Eu ri, eu fui obrigada a rir de mim. Não havia gato nenhum. Não sei se você me entende, pois metade de tudo é tão verdade e o resto é um mix de metáfora e mentiras. Mentiras e metáforas, minhas - em meio as minhas verdades. E o que importa hoje? Ah, que eu acordei amando... Mentira! Metáfora! Quem sabe verdade. É preciso acreditar em algumas coisas... Quero acordar acreditando!

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Ecoando...

Eu acordei dentro de mim... E estar dentro de si é algo avassalador... Eu acordei tão eu - que me da uma vontade imensa de chorar. Eu não estou cabendo - era o que ecoava em mim.

São tempos passados - a limpo - sujos (...)

Eu sonhei - e continuo aqui sonhando. O passado se faz presente - de forma atemporal. E, mesmo ausentes - todos aqui estão. As rupturas, as rachaduras - essas feridas que você esta vendo, tão expostas, são Dele. Entidade maligna? Ou é apenas metade de mim?! Pois eu sou o que já fui, e também sou o que serei - e o meu presente é essa bagunça entre o que se fez no passado e entre o que do presente me puxa adiante, esse tal de futuro... Sim, eu tenho medo dessa bagunça - ela me corta em várias feridas fragmentadas e pingadas a álcool. Dói, arde, e essas feridas parecem não se fechar - sou de péssima cicatrização. O tempo vai passando, mas não existe mais esse tempo - só existe essa bagunça. Ah, eu me sinto perdida assim - e toda vez que me pego pensando nestas minhas bagunças mentais, onde tudo esta em ordem (...) - ordem, repeti para que eu mesma pudesse ouvir e entender, mas eu não entendi - me perco novamente e esse é o modo de eu me encontrar, me reencontrar - por mais que eu não saiba o que fazer de mim.

São tempos passados - a limpo - sujos (...)

sábado, 19 de outubro de 2013

O Melhor de Mim

Ana Carolina - Música

Meu coração está feliz-Por causa de você-Minha vida mudou de vez-Depois que você chegou-Sou outra pessoa-Uma pessoa bem melhor-Se o amor tivesse uma cor-Seria a sua-Se fosse branca essa cor-Seria a mais bela das luas-Toda a beleza que o amor pedir-Eu quero pra você-O melhor de mim, o melhor de mim-Se o amor tivesse um nome-Seria o seu-Se fosse flor o seu nome-Seria o mais doce jasmim-Você sabe me fazer feliz-E eu quero pra você-O melhor de mim, o melhor de mim-O meu corpo está mais quente-Por causa de você-Minha pele mudou de cor-Depois que você chegou-Você entrou na minha vida-Como um anjo cheio de luz-Tudo ficou mais claro-Tudo ficou azul

...

Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Do plural ao singular, tão similar - ao que chamamos...

Eu te chamo, você não vem. Eu clamo, mas não há ninguém... Incompreensível é estar aqui - assim - parada, estática, é simplesmente estar. Já que não compreendo, já que estamos tão distantes que até nos parecemos estranhos - a nós e a nós mesmos - por que razão continuar? Inalcançáveis, incontáveis - tantas foram as vezes e as tentativas. Mas não existe mais ninguém... Nem você, nem eu e nem muito menos a gente. (...)

Do plural ao singular, tão similar, tão simples - a estas coisas que chamamos de nós, tu e eu.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Anotações antigas

Você acaba tendo certos reencontros e fica pensando em tudo o que 'já passou'... Você fica com uma infinidade de coisas martelando na cabeça. Milhões de interrogações! Nossas escolhas - suas consequências, enfim... Certas coisas ainda doem, pulsão. Outras passaram, tiveram seu tempo. As vezes chego a pensar que estou num estado de paz, o tal 'estado de graça'. Ah! Mas isso seria evoluído demais, sou muito simples - e acabo por mergulhar dentro de mim (de novo). (...) Hum... Preocupações, lições, vazões... (...) Completamente sem foco... Contraditória... Viva(?).

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Eterno - terminar

Beberam e se esqueceram... A embriaguez era tamanha que não havia mais noção de tempo. Aquele era o momento perfeito de suas vidas. Aquilo era viver. Aquele momento onde nada mais importava... Afinal de contas, não havia mais essa idéia pobre de tempo. Aquilo fora eterno... Eterno até terminar...

São tantos os recortes... Os cortes... Corre.

Ela se perdeu - ela perdeu. Ela se foi, não é mais... Perdeu o brilho, perdeu o amor, a sensibilidade... A honestidade... Ela se perdeu. Ela se perdeu de si mesma. Esta tão longe que seria quase que humanamente impossível retornar a si. E então como é que fica? Fica assim? Longe? Perdida? Deslocada? Distante... O que acontece com você, hein?!